Agulhas Negras: um pico que já foi difícil de ser conquistado - Webventure

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Agulhas Negras: um pico que já foi difícil de ser conquistado

Redação Webventure/ Montanhismo

Trilha para Agulhas Negras (foto: Gustavo Mansur)
Trilha para Agulhas Negras (foto: Gustavo Mansur)

Nesta coluna, Helena faz uma reflexão sobre a reação das pessoas ao escalar uma montanha e aponta exagero nas atitudes de alguns. Veja o que ela acha e opine você também.

Recebi uma cópia xerox de um artigo de jornal datado de 5 de agosto de 1937. O artigo é intitulado: “Como ir as Agulhas Negras e escalar o seu mais alto pico o Itatyaiussu”. Nele, o autor descrevia as dificuldades dos dois caminhos mais comuns para chegar às Agulhas Negras e fazia outras considerações.

Enquanto eu lia, a imaginação voava pensando em como eram realmente pioneiros os que se aventuravam a escalar as montanhas naquela época. Tudo era bem mais difícil. As pessoas tinham que ir pela estrada de ferro até Resende e de lá arrumar algum transporte para Visconde de Mauá, de onde subiam em lombo de animais até provavelmente onde era o Rancho Caído na trilha hoje proibida Rebouças – Mauá.

De lá, faziam a caminhada ate o sopé da montanha e então subiam até atingir o cume das Agulhas Negras. Ou, do outro lado, vinham para o local que hoje é a cidade de Itatiaia e subiam por dentro do parque, passando pelos abrigos de Macieira, Lamego, etc. até atingir a base das Agulhas. Ainda não era parque nacional nessa época e os refúgios eram casas que abrigaram tentativas de cultivo de frutas na região.

Eu mesma, a primeira vez que fui para lá com o Paulo e não sou tão antiga assim!!! fui de trem até Itatiaia, arrumamos uma Kombi para nos transportar para a cachoeira Véu da Noiva e de lá subimos a pé, com mochilas de lona verde bastante pesadas, passando pelos artigos citados e pelo Massenas, que ainda existia quase inteiro.

O pico das Agulhas Negras, segundo o artigo do jornal, somente foi escalado pela primeira vez em 1911 por Faustino de Freitas não sei se não seria o “velho” guarda-parque Faustino, quem freqüentou o parque nas décadas de 70 e 80 o conheceu guiando dois alemães que viviam em São Paulo e que conseguiram, após muito esforço e provavelmente depois de várias tentativas, chegar finalmente ao cume…

“Destruindo assim uma legenda e criando uma legião de imitadores, tanto que hoje senhoras e até meninos, de um e de outro sexo, tem repetido essa proeza. Quem escreve estas linhas subiu ao Itayaiaiussu em companhia de sua esposa, com esforço, é certo, mas sem arrancos de heroísmo para enfrentar terríveis perigos, que de fato só existem na imaginação dos que costumam exagerar tudo, querendo parecer heroes…”

Ao ler esse parágrafo do texto, só pude rir da atualidade desse comentário.

A situação hoje é bem diferente, o que era difícil de ser alcançado naquele momento, hoje não vai além de um passeio de fim de semana ou mesmo passeio de um dia. É bem verdade que hoje sobem ao cume das Agulhas Negras milhares em cada temporada e, apesar de que para muitos esse não é nenhum ato heróico, outros voltam contando as maiores vantagens de como foram destemidos e etc. etc.

Ou seja, as dificuldades são menores, hoje dispomos de técnicas, roupas, equipamentos, meios de transporte… tudo que só facilita, porém, o exagero nos comentários sobre como foi a subida é bastante verdade para um ou outro que anda a subir as montanhas não só de Itatiaia como de outros vários lugares.

Seria bem melhor que não precisassem vangloriar-se de ter subido este ou aquele pico, mas que somente falassem do prazer da subida, do prazer de apreciar o silêncio, aquele visual maravilhoso… do prazer de conviver com pessoas que também gostam de praticar esportes em meios naturais.

Este texto foi escrito por: Helena Coelho

Last modified: dezembro 14, 2004

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