Subindo pela face sul do Vulcão Lanin - Webventure

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Subindo pela face sul do Vulcão Lanin

Redação Webventure/ Montanhismo

Subida do Lanin (foto: Arquivo pessoal)
Subida do Lanin (foto: Arquivo pessoal)

Na virada deste ano, estávamos o Paulo, eu e mais seis amigos, todos do Clube Andino Independente, acampados na encosta do Vulcão Lanin, na fronteira do Chile com a Argentina.

Três deles haviam escalado o Lanin há vinte anos atrás pela face sul e tiveram a idéia de refazer a mesma subida para comemorar esse aniversário – Alfredo Bonini, Andrea Mattos, Klaus Bartl. Nos juntamos com a idéia de fazer a subida em quatro cordadas independentes. Cada cordada com seu equipamento próprio – grampos de gelo, cordas, etc. – para que todos pudessem guiar, escalar um pouco de gelo, usando as piquetas e toda técnica aprendida em cursos de escalada em gelo, que também foi feito há mais de 20 anos. Além da técnica aprimorada com a experiência acumulada durante todos esses anos e muitas montanhas escaladas. Então, vamos lá.

Entre sugestões, acertamos a data mais conveniente para o grupo e voamos para Bariloche, na Argentina. De lá, contratamos uma van para nos levar a Junin de los Andes, onde ficamos apenas uma noite, o suficiente para fazer as compras de supermercado e de gás para os nossos fogareiros. E, de novo em van, fomos a Puerto Canoas, às margens do lago Huechulafquen, já que a idéia era subir o Vulcão pela face sul. Havia áreas de acampamento e alguns poucos restaurantes, à beira do lago, um bom lugar para descansar antes da subida.

Checagem de equipamentos – Antes da subida, é obrigatório registrar-se no Parque Nacional Lanin e avisar no retorno em Puerto Canoas, ou do outro lado em Rio Turbio. E, para quem não está acostumado com isso, aviso que eles realmente checam item por item se você tem os equipamentos e vestimentas necessários para a subida: capacete, cadeirinha, botas plásticas, crampons, duas piquetas técnicas, mosquetões simples e com trava, grampos para gelo, fitas e cordins, corda para cada duas pessoas, rádios e toda a tralha de acampamento e vestimentas.

Eles verificam se os equipamentos são de qualidade recomendada pelos órgãos técnicos, além de pedir informações sobre o seu currículo de montanha para analisar se permitem que você escale ou não. É um cuidado interessante que diminui em muito o risco de acidentes e resgate por causa de falta de experiência das pessoas ou por falta de equipamentos adequados. Ainda mais que, pela face sul, segundo informações do guarda parque, há somente uma ou duas ascensões por temporada.

Se preferir subir pela face norte, onde a ascensão não é tão técnica, os guardaparques de Rio Turbio também verificam o material que você está levando, obviamente que o equipamento exigido é menor. Por exemplo, eles não exigem duas piquetas técnicas, já que isto não é necessário na subida pelo lado norte. É mais uma caminhada bem íngreme com travessias em terreno nevado. Pelo menos, em janeiro estava assim.

Subimos em um esquema tranqüilo, sem pressa. A idéia era curtir uma escalada técnica, com amigos de longa data, em um lugar realmente lindo. No primeiro dia, fomos até pouco acima do lugar considerado a Base do Vulcão Lanin, e que é acessada por muita gente que sobe e desce no mesmo dia para apreciar o visual.

A caminhada é uma subida bem marcada pelo vale do Rucu Leufu. Há água no caminho e próximo à base do vulcão. Dali, subimos para o glaciar, onde montamos um excelente acampamento. Estava com neve dura e tivemos que cavar plataformas para as barracas, pois o refúgio que havia a mais ou menos 2.600 metros de altitude foi destruído por nevadas fortes há um tempo atrás.

Nesse acampamento, tivemos um pequeno problema com um dos integrantes. Ele teve uma diarréia fortíssima que não passou com nenhum medicamento, mesmo esperando um dia para ver se melhorava. Mas não adiantou. Foi uma pena, mas ele teve que descer para se recuperar.

Como bebemos a água dos riachos que encontramos, e nem sempre se cuidou de colocar “os cloros da vida” e purificar a água, isso pode ter causado esse desconforto para o nosso amigo.

Enquanto esperávamos, subimos ao ice fall (cascata de gelo) para identificar a via de subida. Não há muitas opções. À direita há avalanches de pedras e, à esquerda, avalanches de neve. Então, é encarar o ice fall e procurar a melhor rota para a subida. Se você quer realmente treinar mais avanços com as piquetas técnicas, pode-se optar pelas paredes de gelo mais verticais, montar seu esquema de segurança e subir, subir, subir.

A escalada – Estávamos muito carregados, com cerca de 25 quilos cada um. E fazer subidas técnicas com tudo isso nas costas é um exercício e tanto. Tentamos fazer um esquema de puxar as mochilas que não funcionou muito bem. Então, sem alternativa, levamos a carga paredes acima, no lombo mesmo. Ainda bem que as mochilas eram confortáveis e estávamos com um bom condicionamento físico.

Com isso tudo, saída tarde e cordadas progredindo tranqüilas, tivemos que cavar outra plataforma para dormir antes do cume, usando serrote de gelo, muita pá, enfim… muito trabalho. Essa plataforma foi bastante grande, mas que dava somente para duas barracas que dividimos em sete pessoas.

No dia seguinte, guardamos as cordas, achando que agora era só trânsito sem escalada. Mas ainda havia muito gelo duro em toda a rampa de subida com inclinações de mais ou menos 60 graus. Nos encordamos novamente até terminarmos de contornar uma greta imensa, cerca de 200 metros de desnível da chegada ao cume.

Depois, apesar do final ser bem íngreme, progredimos bastante rápido. O tempo esteve muito bom, apenas com algum vento. Todos os dias comunicávamos com o guarda parque, via rádio, e eles nos diziam da previsão meteorológica. Chegamos no cume: 3.766 metros de altitude, felizes com a chance de um visual maravilhoso.

A volta foi pela face norte, uma descida longa até o refúgio, onde pernoitamos acampados do lado de fora, pois estava lotado com pessoas que sobem pela face norte.

No dia seguinte, descendo para Rio Turbio, passamos por um bosque maravilhoso, com boa sombra, flores, mas difícil de ser devidamente apreciado e curtido devido ao enxame de tábanos, espécie de moscas gigantes que picam muito. Do Rio Turbio, onde encontramos o nosso amigo convalescente da diarréia, fomos direto para Bariloche.

Para subir pela parede sul do Vulcão Lanin é necessário dominar as técnicas de escalada em gelo. Por isso, se você ainda não tem essa facilidade, procure fazer algum curso.

Há bons cursos de escalada em gelo e trânsito em glaciais na Argentina, Bolívia ou Peru. Inclusive, se você preferir, o Clube Alpino Paulista (CAP) oferece um curso desses, todo início de ano, em terras argentinas.

No mais, nunca é demais dizer que é só curtir essa região que surpreende pela beleza das montanhas de altitudes médias e pelas possibilidades de escalada desde vias normais – mais fáceis – até algo mais técnico, mais difícil com um visual que vale a viagem.

Não deixe de visitar o site oficial do Parque Nacional Lanin: www.parquenacionallanin.gov.ar/turi/lanin.htm.

Este texto foi escrito por: Helena Coelho

Last modified: abril 4, 2007

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